“Aquele de Maricá travou”: como o deputado Quaquá blindou R$ 2 bilhões do Master

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Mensagens apreendidas pela PF mostram que o Banco Master tentou capturar R$ 2 bilhões da cidade em 2024. Quaquá, então deputado federal e pré-candidato a prefeito, alertou a gestão municipal e impediu a operação

Em 30 de julho de 2024, o banqueiro Daniel Vorcaro enviou uma mensagem ao lobista Ricardo Siqueira Rodrigues com uma pergunta direta: “Aquele de Maricá travou?”. A resposta confirmou o que os articuladores do Banco Master temiam: a negociação para aplicar recursos do Fundo Soberano de Maricá no banco estava emperrada. “Deu um estresse, mas estou em campo contornando. As matérias assustaram, mas tem conserto”, respondeu o operador. O conserto nunca veio. Maricá ficou de fora. E quem colocou o freio tinha um nome: Washington Quaquá.

As mensagens foram interceptadas pela Polícia Federal e reveladas pela coluna de Tácio Lorran no Metrópoles em 28 de maio de 2026, quando Vorcaro já estava preso há seis meses — preso justamente em Guarulhos no dia em que o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master, em novembro de 2025, na que é considerada a maior intervenção bancária da história do sistema financeiro brasileiro.

O deputado que governava de Brasília

À época da tentativa, Washington Quaquá era deputado federal pelo PT-RJ, eleito em 2022 com 113 mil votos, vice-presidente nacional do partido e pré-candidato declarado à prefeitura de Maricá. O prefeito em exercício era Fabiano Horta, responsável legal e administrativo pelo Fundo Soberano — criado por ele em 2018 e que chegaria ao fim de 2024 com R$ 2,6 bilhões em reservas.

Mas Maricá não funciona como uma administração comum. O projeto político que governa a cidade há 16 anos é essencialmente uma construção de Quaquá: ele fundou as bases, elegeu Fabiano Horta como seu sucessor, manteve interlocução permanente com a gestão municipal mesmo de Brasília e já se preparava para retornar ao Paço em janeiro de 2025. Na prática, havia uma linha direta entre o deputado e as decisões estratégicas da cidade — especialmente aquelas que envolviam o patrimônio do Fundo Soberano, que Quaquá tratava como prioridade inegociável do projeto político.

Foi nesse contexto que, ao tomar conhecimento das articulações do Master para entrar em Maricá, Quaquá acionou seus contatos no mercado financeiro. Os sinais eram ruins: bancos e gestoras já circulavam alertas privados sobre a situação do Master, que oferecia CDBs com taxas de até 128% do CDI para atrair recursos — muito acima do que uma instituição saudável precisaria pagar. Quaquá ouviu esses alertas, levou o recado à gestão municipal e foi categórico: o dinheiro do petróleo de Maricá não iria para aquele banco.

Em vídeo gravado em janeiro de 2026, já como prefeito, ele descreveu o episódio sem rodeios: “Lá no passado, o malandro que veio de Brasília pra cá tava negociando botar o Fundo Soberano de Maricá no Banco Master. Master! Nós entramos e falamos: ‘não bota que esta merda, todos os nossos amigos do mercado financeiro tão dizendo que esta merda vai quebrar, não façam isso, não façam isso!’. Os nossos 2 bilhões iam pro Master, se a gente não intervém.”

O lobista, o banqueiro e Maricá

A operação foi montada por Ricardo Siqueira Rodrigues, operador financeiro com histórico pesado: já havia sido alvo da Operação Lava Jato e foi condenado pela Comissão de Valores Mobiliários a devolver R$ 53,3 milhões por fraude no caso envolvendo o Trump Hotel. Era ele quem fazia a ponte entre Vorcaro e os municípios-alvo — e Maricá, com seus R$ 2 bilhões em reservas e royalties de petróleo chegando todo mês, era um prêmio óbvio.

A PF classifica a movimentação como tentativa de “captação” de recursos públicos. A estratégia do Master era conhecida: oferecer taxas acima do mercado para atrair aplicações de prefeituras, institutos de previdência e estatais — entes que, por lei, não têm cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) acima de R$ 250 mil por CNPJ e que frequentemente aplicam em Letras Financeiras, instrumento sem qualquer cobertura do FGC. Em outras palavras: se o banco quebrasse, o dinheiro público simplesmente evaporava.

E o banco quebrou.

O preço pago por quem não recusou

Enquanto Maricá resistia, outras instituições públicas cederam — e pagaram caro. O Rioprevidência, sob gestão do governador Cláudio Castro, aportou cerca de R$ 3,7 bilhões em fundos e letras do Master. O Instituto de Previdência de Itaguaí (Itaprevi) aplicou R$ 58 milhões — quase 20% de todo o seu patrimônio. A Cedae colocou R$ 200 milhões em outubro de 2023. Cajamar perdeu R$ 87 milhões, Maceió R$ 97 milhões, o estado do Amapá R$ 400 milhões. Todos estão hoje na fila de credores de uma massa liquidanda bilionária, sem perspectiva real de recuperação integral.

A liquidação do Banco Central, decretada em 18 de novembro de 2025, expôs o tamanho do buraco: o Master tinha apenas 10% do caixa necessário para honrar os CDBs que venceriam. O custo estimado para o FGC supera R$ 50 bilhões — valor que sairá do bolso de todos os bancos brasileiros, e indiretamente dos correntistas.

O que Maricá preservou

O Fundo Soberano de Maricá fechou 2024 com R$ 2,6 bilhões intactos, aplicados integralmente em fundos conservadores do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, dentro da política histórica da gestão petista local. Com o início do terceiro mandato de Quaquá, em janeiro de 2025, o saldo foi ajustado para cerca de R$ 1,9 bilhão — ainda o maior fundo soberano municipal do Brasil. 

Esse patrimônio é agora a base dos projetos estruturantes da nova gestão: o Porto de Jaconé (TPN), com investimento previsto de R$ 1,5 bilhão e geração estimada de 13 mil empregos, o Parque Tecnológico de Ubatiba, a Maricá Global Invest S.A. — criada para profissionalizar a gestão dos investimentos do município — e as conversas já iniciadas com o BTG Pactual para instalação de um data center na cidade.

A lição do episódio

O caso do Banco Master em Maricá ensina algo que vai além da gestão financeira: liderança política é exercida antes do cargo, não apenas durante ele. Quaquá não precisava da cadeira de prefeito para enxergar o risco, alertar quem estava no poder e garantir que o patrimônio coletivo de Maricá ficasse protegido. Fez isso como deputado, como pré-candidato, como fundador de um projeto político que trata o dinheiro do petróleo como herança das próximas gerações — não como ativo disponível para banqueiros de Brasília.

Quando Vorcaro perguntou “Aquele de Maricá travou?”, a resposta foi sim. E quem travou já sabia exatamente o que estava fazendo.

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