Criada em Maricá, a Mumbuca atende mais de 71 mil moradores, movimenta milhões todos os meses e mantém parte do dinheiro circulando dentro do próprio município
Uma cidade da Região Metropolitana do Rio criou uma moeda própria, deposita mensalmente um benefício para milhares de moradores e ainda oferece ônibus, vans e bicicletas públicas sem cobrança de passagem.
O modelo funciona em Maricá, município localizado a cerca de 60 quilômetros da capital fluminense. Desde 2013, a cidade utiliza a Moeda Social Mumbuca como ferramenta de transferência de renda, estímulo ao comércio e fortalecimento da economia local.
Atualmente, mais de 71 mil moradores, distribuídos em aproximadamente 31 mil famílias, estão ligados à Renda Básica de Cidadania paga em Mumbuca. Considerando a população estimada do município, o programa alcança uma parcela expressiva dos maricaenses.
Cada beneficiário recebe mensalmente 230 Mumbucas, equivalentes a R$ 230. O valor pode ser utilizado em supermercados, farmácias, padarias, lojas, restaurantes e outros estabelecimentos credenciados dentro da cidade.
Com a quantidade atual de participantes, mais de R$ 16 milhões podem ser colocados em circulação na economia de Maricá todos os meses apenas por meio da Renda Básica de Cidadania.

O que é a Moeda Social Mumbuca?
A Mumbuca é uma moeda social digital criada pelo município de Maricá. Ela possui paridade com o real, o que significa que uma Mumbuca corresponde a R$ 1.
Apesar de ser chamada de moeda própria da cidade, a Mumbuca não substitui o real, não é uma criptomoeda e não pode ser confundida com moedas digitais como Bitcoin.
O principal diferencial está na circulação local. O benefício depositado nas contas dos moradores deve ser gasto nos estabelecimentos credenciados em Maricá.
Na prática, o recurso transferido pelo município permanece na cidade por mais tempo. O morador utiliza a Mumbuca em um mercado, uma farmácia ou uma loja; o estabelecimento recebe o valor e pode utilizá-lo em outras operações dentro da rede.
A proposta é criar um ciclo de consumo capaz de beneficiar tanto as famílias atendidas pelos programas sociais quanto os pequenos e médios negócios do município.
Como surgiu a Mumbuca?
A Moeda Social Mumbuca foi criada em junho de 2013, por meio da política municipal de economia solidária, combate à pobreza e desenvolvimento econômico.
O projeto foi inspirado no Banco Palmas, iniciativa comunitária criada no Conjunto Palmeiras, em Fortaleza, no Ceará, no final da década de 1990. A experiência cearense é considerada pioneira na utilização de moeda social no Brasil.
Maricá, entretanto, ampliou o conceito para todo o território municipal. A cidade também adotou desde o início um modelo digital, sem a necessidade de colocar cédulas físicas em circulação.
A moeda recebeu o nome de Mumbuca em referência ao rio e ao bairro existentes no município.
O que começou como uma política direcionada a um grupo menor de moradores foi sendo ampliado ao longo dos anos. Atualmente, a Mumbuca está relacionada a diferentes programas de transferência de renda e proteção social.
Quanto uma família pode receber?
O pagamento da Renda Básica de Cidadania é realizado por pessoa incluída no programa.
Cada beneficiário recebe 230 Mumbucas por mês. Dessa forma, o valor total varia conforme o número de integrantes da família cadastrados.
Uma família com três beneficiários, por exemplo, pode receber 690 Mumbucas mensais. Em um núcleo com quatro pessoas incluídas no programa, o pagamento pode chegar a 920 Mumbucas.
O recurso fica disponível em uma conta digital e pode ser utilizado por meio do cartão Mumbuca ou do aplicativo vinculado ao sistema.
Para participar, a família precisa atender aos critérios estabelecidos pelo programa, manter as informações atualizadas no Cadastro Único e comprovar residência em Maricá, além de cumprir as regras relacionadas à renda familiar.
Mais de R$ 16 milhões por mês no comércio de Maricá
Com mais de 71 mil beneficiários recebendo 230 Mumbucas, a Renda Básica de Cidadania representa uma injeção mensal superior a R$ 16 milhões.
O valor não é distribuído apenas como auxílio financeiro. Como a moeda é utilizada dentro do próprio município, os pagamentos também funcionam como uma política de desenvolvimento econômico.
Mercados de bairro, farmácias, lojas de roupas, padarias, restaurantes, salões de beleza e prestadores de serviços podem receber parte desses recursos.
O objetivo é evitar que todo o dinheiro transferido às famílias deixe imediatamente a cidade. Quanto maior for a rede de estabelecimentos e fornecedores locais, maior poderá ser o número de vezes que a mesma moeda circula entre moradores e comerciantes.
Esse efeito ajuda a explicar por que a Mumbuca se tornou mais do que um cartão de benefício social. Ela passou a ter participação relevante no funcionamento da economia de Maricá.
Mumbuca já movimentou bilhões de reais
Dados divulgados pelo município indicam que aproximadamente R$ 3 bilhões foram movimentados pelo sistema entre 2018 e 2024.
O levantamento divulgado naquele período reunia uma estrutura com cerca de 133 mil contas ou usuários vinculados, considerando não apenas os beneficiários da Renda Básica, mas também participantes de outros programas, comerciantes e prestadores de serviços.
A rede chegou a reunir aproximadamente 16 mil empreendimentos cadastrados.
Os números atuais podem ser diferentes por causa da troca da plataforma digital, das migrações de contas e do recadastramento dos beneficiários e estabelecimentos.
Ainda assim, o volume acumulado mostra a dimensão alcançada pela moeda. Poucas experiências brasileiras de economia solidária operam com uma quantidade semelhante de participantes, programas públicos e recursos financeiros.
Por que o número de beneficiários mudou?
Em diferentes períodos, o município já divulgou bases com mais de 90 mil participantes da Renda Básica de Cidadania.
Os números mais recentes, porém, apontam mais de 71 mil beneficiários distribuídos em cerca de 31 mil famílias.
A diferença está relacionada à atualização e revisão dos cadastros, além da necessidade de comprovar que os participantes continuam cumprindo os critérios do programa.
Maricá iniciou um processo de recadastramento com visitas domiciliares e verificação de informações como endereço, composição familiar e situação socioeconômica.
Por isso, números divulgados em anos diferentes não devem ser comparados como se representassem exatamente o mesmo grupo.
Alguns levantamentos consideram apenas quem recebe a Renda Básica. Outros somam beneficiários de diferentes programas, comerciantes, prestadores de serviços e todas as contas abertas na plataforma.
Mumbuca é a maior moeda social do Brasil?
A Mumbuca está entre as maiores moedas sociais municipais do Brasil, mas a posição depende do critério utilizado.
Em número de famílias atendidas atualmente, a Moeda Social Arariboia, de Niterói, apresenta uma base maior. O programa niteroiense já informou atender mais de 54 mil famílias e possuir mais de oito mil estabelecimentos credenciados.
A Mumbuca, por outro lado, possui um período maior de funcionamento, já que foi criada em 2013, além de apresentar uma movimentação financeira acumulada de bilhões de reais.
Maricá também realiza o pagamento por pessoa da família, enquanto outros municípios utilizam critérios diferentes, como pagamentos por responsável familiar, adicionais por dependentes ou valores definidos conforme a composição do núcleo.
Dessa forma, não é correto comparar os programas apenas observando uma única coluna.
Comparação com outras moedas sociais
| Moeda | Município | Dimensão divulgada | Característica |
|---|---|---|---|
| Mumbuca | Maricá | Mais de 71 mil pessoas e cerca de 31 mil famílias | Criada em 2013 e integrada a diferentes políticas municipais |
| Arariboia | Niterói | Mais de 54 mil famílias | Uma das maiores bases familiares entre as moedas municipais |
| Macaíba | Macaé | Mais de 31 mil pessoas | Programa com valores definidos conforme a composição familiar |
| Pedra Bonita | Itaboraí | Cerca de cinco mil famílias na fase inicial | Voltada à segurança alimentar e ao fortalecimento do comércio |
| Saquá | Saquarema | Base consolidada recente não divulgada | Benefício básico elevado para 400 moedas em 2026 |
| Palmas | Fortaleza | Criada inicialmente para uma comunidade local | Experiência pioneira entre as moedas sociais brasileiras |
Os programas possuem regras, valores e públicos diferentes. Enquanto alguns atendem moradores individualmente, outros contabilizam apenas o responsável ou a família inteira.
O que diferencia a Mumbuca?
O tamanho da Mumbuca não está apenas no número de pessoas que recebem o benefício.
A moeda faz parte de uma estrutura mais ampla de políticas sociais, economia solidária, apoio aos trabalhadores e incentivo ao comércio local.
Além da Renda Básica de Cidadania, a plataforma já foi utilizada no pagamento de benefícios destinados a indígenas, cuidadores, trabalhadores, pessoas em situação de vulnerabilidade e mulheres atendidas por programas de enfrentamento à violência.
Maricá também possui um banco comunitário associado ao modelo, responsável por ações de educação financeira, crédito e apoio a empreendedores.
Essa integração entre transferência de renda, banco comunitário e rede comercial diferencia a Mumbuca de programas que funcionam apenas como cartões de alimentação.
Pesquisas analisam impactos sobre renda e trabalho
O programa de Maricá também passou a ser estudado por universidades e instituições de pesquisa.
Um dos levantamentos realizados com participantes da Renda Básica identificou aumento da renda e do consumo das famílias, sem redução significativa das horas trabalhadas.
Os pesquisadores também observaram impactos importantes entre famílias com crianças e núcleos familiares chefiados por mulheres.
Os resultados ajudam a responder a uma dúvida frequente sobre programas de renda básica: a possibilidade de o benefício levar os moradores a abandonar o trabalho.
Os estudos realizados até o momento não apontaram uma redução relevante da atividade profissional entre os participantes.
Isso não significa que todos os efeitos positivos registrados na cidade sejam provocados exclusivamente pela Mumbuca. Maricá possui outras políticas públicas, investimentos municipais e uma receita elevada proveniente do petróleo, fatores que também influenciam a economia.
Maricá também tem ônibus e vans gratuitos
A moeda social faz parte de um conjunto de programas que tornou Maricá conhecida nacionalmente.
A cidade também oferece transporte público municipal sem cobrança de passagem. Os ônibus conhecidos como Vermelhinhos realizam milhões de deslocamentos mensais entre os bairros.
As vans municipais também passaram a operar pelo sistema Tarifa Zero, ampliando o atendimento em regiões e vias nas quais os ônibus possuem mais dificuldade de circulação.
Maricá ainda mantém um serviço de bicicletas compartilhadas, também chamadas de Vermelhinhas, que pode ser utilizado gratuitamente dentro das regras do programa.
A combinação entre moeda social e transporte gratuito reduz duas despesas importantes no orçamento das famílias: alimentação e deslocamento.
Com menos gastos em passagem, uma parcela maior da renda pode ser utilizada em compras, medicamentos, pagamento de serviços e outras necessidades.
Royalties ajudaram a ampliar os programas
A expansão da Mumbuca e de outras políticas públicas foi favorecida pelo crescimento da arrecadação de royalties e participações especiais do petróleo.
Maricá está localizada na área de influência da produção da Bacia de Santos e passou a receber um volume elevado desses recursos.
Parte da arrecadação foi utilizada para financiar programas sociais, infraestrutura, transporte gratuito e projetos econômicos.
Porém, o petróleo é um recurso limitado e suas receitas podem variar. Por isso, um dos principais desafios é garantir a continuidade das políticas quando a arrecadação diminuir.
O município criou um Fundo Soberano para reservar parte dos recursos e gerar rendimentos que possam contribuir para o financiamento futuro da cidade.
A sustentabilidade da Mumbuca dependerá da capacidade de Maricá de transformar a riqueza temporária do petróleo em receitas permanentes, empregos e atividades econômicas independentes dos royalties.
Recadastramento e tecnologia estão entre os desafios
A dimensão alcançada pela moeda também aumentou a complexidade da operação.
Um dos desafios é atualizar os cadastros para garantir que o benefício continue chegando às pessoas que realmente atendem aos critérios.
A mudança da plataforma digital também provocou dificuldades para alguns beneficiários e comerciantes, especialmente entre usuários com menor familiaridade com aplicativos e serviços digitais.
Mutirões e atendimentos presenciais foram necessários para ajudar na atualização das contas, recuperação de acessos e utilização do novo sistema.
Outro ponto importante é a divulgação periódica de dados. Informações como número de beneficiários ativos, quantidade de estabelecimentos credenciados, volume movimentado e valores pagos precisam seguir critérios padronizados.
Isso permitiria acompanhar com maior precisão o crescimento da moeda e comparar os resultados com outras experiências brasileiras.
Uma moeda que se tornou parte da cidade
A Mumbuca começou como uma política municipal de combate à pobreza, mas ganhou uma dimensão muito maior.
A moeda passou a fazer parte do cotidiano de milhares de famílias, movimentou bilhões de reais e transformou Maricá em um dos principais laboratórios brasileiros de renda básica e economia solidária.
O modelo não elimina os desafios sociais da cidade e ainda depende de atualização cadastral, estabilidade tecnológica, transparência e planejamento financeiro.
Mesmo assim, a experiência mostra como uma moeda local pode ser utilizada para atingir dois objetivos ao mesmo tempo: apoiar as famílias e fortalecer a economia do próprio município.
Em Maricá, o benefício não termina quando chega à conta do morador. Ele segue circulando nos mercados, farmácias, lojas e serviços da cidade, criando uma rede que conecta política social, consumo e desenvolvimento econômico.

